Sal: ilha com ritmo no coração

Há ritmo e leveza nos sorrisos de quem nos recebe na ilha do Sal, em Cabo Verde. Virado para o turismo, este pequeno pedaço de terra – não tem mais do que 30 quilómetros de comprimento e 12 quilómetros de largura – tem, apesar disso, um coração enorme. Sabe receber e tem gosto nisso. Aqui, aprende-se de imediato que o stress ficou para trás, a cerca de quatro horas de viagem de avião, e que o tempo, que corre devagar, deve ser aproveitado da melhor maneira: na praia ou a dançar.
É no sul, na localidade de Santa Maria, que se encontram quase todos os empreendimentos turísticos. Banhada por águas profundamente azuis e com uma extensa praia de areia branca – graças aos ventos que a transportam desde o deserto do Saara, apesar da origem vulcânica – esta povoação de pescadores tem excelentes argumentos para nos conquistar.
Mas vale a pena sair de Santa Maria e conhecer um pouco melhor a história da ilha que deve o seu nome às salinas de Pedra de Lume. Foi o sal que lhe deu vida. Foram as salinas que deram trabalho aos primeiros habitantes que ali se instalaram depois de 1830. Até 1980, a exploração das salinas dinamizou a economia local, que não tinha (e não tem) alternativas, uma vez que a ilha é muito árida e com pouca vegetação.
É na cratera de um antigo vulcão que encontramos as salinas, assim como as estruturas de madeira que serviam de suporte à recolha e transporte do sal. A paisagem merece ser admirada com calma e ainda temos direito a um banho muito curioso. Dada a quantidade de sal existente na água, o corpo perde o peso e começa a flutuar, como se estivéssemos no Mar Morto.
A viagem prossegue ilha adentro pela estrada de terra batida. Pelo caminho, temos direito a umas “miragens”. É um brinde por nos encontrarmos perto da costa africana e do maior deserto do mundo. Paramos junto à costa para vislumbrarmos uma gruta, chamada “Olho Azul”. De facto, ao olharmos para a água, a luz do sol a incidir naquele buraco escuro dá-lhe uma tonalidade azul. E, ali perto, temos as piscinas rochosas naturais, sendo a mais conhecida a “Buracona”.
Tempo ainda para conhecer o principal porto da ilha, situado na vila de Palmeira. Ali, encontramos peixe acabado de sair do mar a ser esventrado e amanhado para que, de seguida, possa ser vendido.
De regresso a Santa Maria, impõe-se uma paragem na maior cidade da ilha: Espargos. Com cerca de oito mil habitantes, esta povoação tem hospital, centro cultural, biblioteca, quartel e bancos. Aqui, encontramos crianças alegres e ruidosas a brincar na rua, depois de saírem da escola, encontramos a azáfama colorida de frutas e legumes a serem vendidos no mercado, encontramos edifícios de cores fortes a contrastarem com casas que parecem inacabadas. Antes de partirmos, vale a pena subir a colina para obtermos uma vista panorâmica da cidade.
Aventuramo-nos ainda no mar, nesse imenso mar, numa viagem que nos leva a conhecer um pouco da riqueza das profundezas do oceano. Viajamos a bordo do Neptunus, uma espécie de submarino amarelo com o fundo em vidro, qual janela aberta para os mistérios que se escondem debaixo de água. Foi Emídio Simões, português que foi viver para a ilha em 2007, quem criou este negócio, que hoje faz parte da lista de “coisas a fazer” na ilha.
Voltamos a terra firme para mergulhar nas águas calmas e límpidas do oceano Atlântico. Voltamos à tranquilidade de Santa Maria, apenas interrompida pelo vento que nos sacode o corpo e os cabelos, para dar uma caminhada pelo longo areal. Cruzamo-nos com as conversas alegres feitas em crioulo cabo-verdiano e até nos habituamos às palavras melodiosas cantadas ao ritmo das mornas ou do funaná. O que custa é partir, depois de nos rendermos a este estilo de vida que, por estas paragens se chama morabeza e não se explica, vive-se.

Créditos da imagem: Helena Simão
Este texto integra a rubrica “Viajar” do portal SAPO Viagens.

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