De repente

E, de repente, secaste as minhas lágrimas como se limpasses a minha dor mais profunda. Acariciaste a minha alma, que estava perdida e prostrada no chão, sem forças para se voltar a erguer. Tocaste, com os teus dedos, no meu rosto como se percorresses um sentido único que só tu conheces.
E, de repente, apagaste as lembranças, aquelas que nunca devíamos ter vivido, que eu nunca devia ter guardado. Mas é preciso viver o mau para saborear o bom, é preciso conhecer a angústia para enfrentar o tempo com a espada da esperança. E, de repente, despiste todos os meus medos, as minhas dúvidas, todas as minhas frases feitas. Retiraste a máscara com que protegia o meu coração de ti. Fiquei nua de mentiras, de receios, de desconfianças. Não de medo, que o medo alimenta o sonho, alicerça a confiança, dá força à fé. Só eu, o meu corpo e os meus pensamentos a entrar em ebulição, e tu. Frente a frente.
Tu, que não me deste tempo para preparar este momento, apesar de o tempo ter sido a única coisa que me restou. Tu, que não me avisaste que vinhas, apesar de o meu coração ter carregado sempre essa ilusão. Tu, que não me preveniste para essa onda avassaladora que é o teu sorriso, apesar de ter sobrevivido graças a ele. E, de repente, os meus pés perderam-se do chão e tu seguraste-me.

Créditos da imagem: Rita Catarino
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