João Portugal Ramos: arte de criar vinhos

Se, como diz João Portugal Ramos, “criar um vinho é uma arte”, desenvolver e gerir um império em torno deste negócio só pode ser uma paixão. O enólogo, que começou por plantar cinco hectares de vinha, em Estremoz, no distrito de Évora, possui atualmente 600 hectares, produzindo seis milhões de garrafas por ano, não apenas de vinhos alentejanos, mas também das regiões do Tejo, Beiras, Douro e vinho verde. O enoturismo é uma vertente que ganha cada vez mais adeptos e, todos os dias, as portas da Quinta João Portugal Ramos, situada naquela cidade alentejana, estão abertas para provas de vinhos, tapas, almoços e workshops.
As uvas são as protagonistas de uma bonita e longa história recheada de sucessos, que tem a assinatura de uma figura incontornável do sector em Portugal: João Portugal Ramos. Proveniente de uma linhagem de produtores, licenciou-se em Agronomia e, no início da carreira, foi enólogo consultor, ajudando a produzir e a promover algumas das marcas mais conceituadas de vinhos nacionais.
Em 1988, mudou-se para Estremoz e aí começou a sua produção, adquirindo uma pequena vinha. A primeira vindima ocorreu em 1992. Cinco anos mais tarde, construiu a Adega Vila Santa, em homenagem à Rainha Santa Isabel, que morreu no Castelo de Estremoz. O mesmo nome foi dado a um dos vinhos mais relevantes da casa.
Foi nestas propriedades abençoadas pelo sol alentejano que o responsável desenvolveu vinhos de uma única casta, mas também marcas com várias castas, como o Marquês de Borba, o mais conhecido e mais comercializado, o Loios, o Quinta da Viçosa e o Estremus, uma edição limitada com uvas trincadeira e alicante bouschet, plantadas em solo de calcário e mármore, produzida apenas em anos excecionais.
Um árduo trabalho de criatividade, que combina uma produção de qualidade, onde a variedade dos solos ajuda a determinar a diversidade das uvas, com a tecnologia e a arte necessárias para produzir, armazenar, envelhecer, engarrafar e distribuir. Uma garrafa de vinho é o resultado de um longo percurso, de uma história feita de uma equipa dedicada em torno de um projeto e de pormenores, muitos pormenores que não podem ser deixados ao acaso.
Exemplo disso é a temperatura da adega, constante nos 15 graus e com uma humidade na ordem dos 90%, seja inverno ou seja verão. Como é que se consegue tal proeza? Explica Sofia Nanita, gestora de turismo vinícola, que o chão de pedra é constantemente molhado. Além disso, o piso superior foi transformado num relvado e é atualmente uma espécie de miradouro, com vista privilegiada para as vinhas e para o castelo, um dos lugares mais tranquilos e representativos da paisagem do Alto Alentejo.
Outra curiosidade é o facto de os balseiros terem um tempo de vida útil de oito anos, sendo substituídos após esse período. As barricas, feitas de carvalho francês, americano e português, são também de pouca utilização. Os melhores vinhos envelhecem em barricas de primeiro uso durante um período de seis a 18 meses.
Apesar de pequeno, o nosso país tem solos com propriedades muito diversas, que permitem plantações distintas e, assim, produzir vinhos com características muito diferentes. Depois do Alentejo, João Portugal Ramos expandiu-se para as regiões do Tejo, Beiras, Douro e Minho. Desta forma, nasceram novos rótulos, como o Conde de Vimioso, do Tejo, o Quinta da Foz de Arouce, das Beiras, e o Duorum, do Douro. Mais recentemente, foi lançado o verde Alvarinho. Há cerca de dois anos, surgiu o Pouca Roupa, uma marca mais jovem e descontraída, com a assinatura do filho João Maria Ramos.
As vindimas decorrem entre Agosto e Outubro e são as uvas brancas as primeiras a serem cortadas. Seguem para a sala de vinificação, que conjuga tradição e tecnologia. Aqui, os lagares construídos de mármore rosa, típico da região, convivem com os equipamentos mais recentes, que irão transformar as uvas no néctar tão apreciado em todo o mundo. As melhores uvas seguem o processo tradicional da pisa a pé antes de darem origem aos vinhos mais nobres, como o Marquês de Borba Reserva.
Cerca de 60% da produção tem como destino a exportação, para países como Angola, Brasil, Canadá, China, Estados Unidos e Suécia. E são também destes países que provêm milhares de turistas que anualmente visitam a Quinta João Portugal Ramos. O enoturismo é uma prática que atrai cada vez mais curiosos e apreciadores de vinhos.
Para captar este imenso público, foram criados diversos programas, que vão desde a prova de dois vinhos (6€) às tapas (24 e 40€). Mas há também almoços e workshops de culinária (85€). Há quem queira ser “um enólogo por um dia”, criando um vinho com as castas que mais gosta, e quem participe ativamente na vindima e na pisa das uvas (80€). Alguns dos programas são adaptados para crianças. Todas estas atividades incluem uma visita à adega e caves.
Fui recebida de forma acolhedora e tranquila num espaço já por si pacato e silencioso ou não estivesse no meio da planície alentejana. Os edifícios, construídos com a traça local e pintados de branco e amarelo, ajudam a tornar o ambiente ainda mais bucólico e rural.
Depois de ouvir as preciosas e precisas explicações de Sofia Nanita, tive a oportunidade de provar o Pouca Roupa branco de 2016, um vinho leve que combina com o verão que se aproxima, e o Alvarinho verde de 2016, com notas florais e cítricas. Dos tintos, vieram para a mesa o Pouca Roupa de 2015 e o Vila Santa Reserva de 2014 produzido com cinco castas, um vinho mais complexo e encorpado. Estes diferentes sabores e aromas misturam-se facilmente com o queijo de ovelha e o pão alentejano. É também apresentado o azeite da casa Oliveira Ramos Premium.
De seguida, sou convidada a mudar de mesa para as tapas. Uma experiência requintada e genuína, onde os paladares fortes típicos da região estão bem vincados. A mesa apresenta-se com pastas de azeitonas, farinheira e coentros, salada de grão com bacalhau, presunto de porco preto, queijo derretido com orégãos e tiborna com orégãos, regadas com azeite. Tudo isto num ambiente caseiro, que nos convida a estar e a desfrutar cada sabor com todo o tempo do mundo. A degustação termina com um bolo de chocolate, qual cereja no topo desta experiência.
Os vários programas estão disponíveis todos os dias da semana mediante reserva.

Créditos da imagem: Quinta João Portugal Ramos
Este texto integra a rubrica “Saborear” do portal SAPO Viagens.

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