Ali fiquei

Ali fiquei, destroçada, a recolher os fragmentos de uma vida que foi completa quando a dividi contigo. Ali fiquei, encostada a um muro de ausências que foste construindo para que a despedida não fosse tão dolorosa. Como se não fosse para sempre, como se não ficasse um sabor amargo de uma felicidade que não voltarei a provar.
Fiquei parada, sem nada perceber, sem nada querer além de voltar atrás no tempo, além de apagar a dor daquele momento cruel. Não foi o mar que nos separou, foram as palavras que achaste por bem não me dizer, foram os medos que te corroeram o espírito e que achaste melhor não partilhar. Teria bastado uma palavra, um sinal e tudo poderia ter sido diferente.
E neste desejo absurdo e louco de apagar o tempo que passou ou a memória de um tempo que não voltarei a repetir, grito para o vazio que me rodeia, ergo-me para um precipício que não consigo ver, revolto-me sem sequer saber porquê. Nada mais resta a não ser as perguntas que ficaram por responder. Nada mais resta a não ser a saudade, essa saudade que ainda me faz juntar todos os pedaços de uma vida que percorremos juntos, de uma vida que foi sol e luz e paixão. Nada mais resta nesta mão vazia que quer guardar à força o calor da tua mão. Nada mais resta nestes lábios que ainda guardam o sabor dos teus a não ser o tempo que falta para te reencontrar.

Créditos da imagem: Helena Simão

Arquivo

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