Regresso

Estava de volta a Lisboa.
Cinco anos depois de ter partido, empurrada pela brusquidão do destino, ali estava a percorrer a rua Augusta, agora sem ninguém a dar-lhe a mão, sem a companhia do seu amor. Tinham passado cinco anos desde que um acidente estúpido de automóvel lhe tirara abruptamente a vida. A ela, tirara-lhe a esperança e a vontade de continuar sem ele.
Por isso, quando a empresa de informática onde trabalhava lhe deu a hipótese de ir para o Porto liderar um grupo, aceitou de imediato. A ideia era estar fora apenas por alguns meses, mas habituou-se àquela cidade melancólica.
Habituou-se a caminhar pela Ribeira sempre de olhos postos no rio Douro, como se houvesse ali alguma resposta para o que lhe sucedera, como se fosse possível atirar para a água toda a sua dor. Não era, mas o tempo devolveu-lhe alguma serenidade e acalmou a sua revolta. O tempo só não a ajudou a saber o que fazer com a saudade, uma nostalgia imensa que inundava todo o seu corpo.
Era hora de regressar. Soube-lhe bem rever os amigos e estava a saber-lhe bem perder-se pelas ruas da Baixa repletas de vida, numa azáfama de cores e de sons que contrastava com o seu espírito, mais habituado ao silêncio e ao vazio. Soube-lhe bem ver o Tejo ali tão perto, brilhante e tranquilo, como que a dizer-lhe “vai correr tudo bem”. Foi o que ele lhe dissera da última vez que se encontraram, no miradouro das Portas do Sol. Resolveu caminhar até lá.
Atravessou o Rossio em passo acelerado, seguindo em direção ao Martim Moniz. Uma brisa fria bateu-lhe suavemente no rosto. Não soube explicar, mas sentiu-se acompanhada. Como se ele estivesse ali a dizer piadas sobre os imensos degraus, sobre os pombos, sobre tudo e sobre nada. Ele gostava de a ver sorridente. E ela sorria sempre que estava com ele. Ele tornava-a uma pessoa melhor. Ele tornou-a uma pessoa melhor e isso nem a morte pode apagar.
Ao chegar ao miradouro, sentiu-se abraçada pela vista deslumbrante. O sol mostrou-se por entre as nuvens. Sorriu.

Créditos da imagem: Helena Simão
“Regresso” integra a segunda edição de “Um Livro Num Dia – contos da manhã que logo entardeceu”, uma iniciativa da Chiado Editora para celebrar o Dia Mundial do Livro.

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