Real Nepal: arte de conviver à mesa

Veio do país mais alto do mundo para realizar o sonho de dar uma vida melhor à família que deixara no Nepal: mulher, uma filha de dois anos e outra que acabava de nascer. Rajkumar Malla veio para Portugal em busca de algo que o seu país, localizado entre a Índia e o Tibete (China), sem costa marítima, não lhe podia dar. Seguiu os passos do cunhado, que já trabalhava na restauração, em Lisboa, e, em 2010, abriu aquela que é a sua casa: o restaurante Real Nepal, junto à estação de Entrecampos. Há poucas semanas, inaugurou um segundo espaço com o mesmo nome, na Praça do Chile.
Quando, ainda novo, viajou para a Índia, Rajkumar já sabia que tinha ambição de mais para o tamanho da terra onde nascera, no centro do Nepal, Parbat, em Dhawalagiri, onde se encontra a sétima montanha mais alta do mundo, a sul do imponente Monte Evereste, que, com os seus 8848 metros de altura, é o ponto mais alto do mundo. Depois de conhecer o país vizinho, sentiu-se preparado para a viagem da sua vida.
Veio para Portugal em 2004 e rapidamente se adaptou ao nosso país, que, apesar das diferenças óbvias – no Nepal, 80% da população é hindu e 10% é budista – e da distância, “não é assim tão díspar do Nepal”. “O Nepal é um país tolerante e pacífico, tal como Portugal. Gostamos de receber bem e gostamos de ambientes festivos, tal como em Portugal”, refere num português ainda misturado com palavras nepalesas. E é esse ambiente que encontramos no seu restaurante, quase como se da sua sala de jantar se tratasse. É como amigos que trata quem o visita.
A ementa é variada e acrescenta pratos indianos aos da sua terra natal. Apesar de ter trazido a inspiração e os sabores do Nepal, ao longo dos anos, foi adaptando alguns paladares mais intensos e acrescentou ingredientes que não são habituais naquele país asiático, como as natas. Destaque para os pratos vegetarianos, uma vez que grande parte da população nepalesa não come carne, e para os pratos de borrego, que constituem uma adaptação à carne de búfalo ou cabrito, as mais consumidas no seu país.
O Chicken Tikka Masala, peito de frango grelhado e frito na frigideira, com molho de caju, tomate, natas e especiarias, é dos pratos mais procurados, bem como o Tandoori Chicken, frango marinado com ervas, iogurte e especiarias, grelhado no forno Tandoori, e o Lamb Tikka, bifinhos de borrego, marinado com molho de iogurte, e grelhado. Requisitados são também os pratos de caril, como o de borrego, e os vegetarianos, como o Dal Tarka, lentilhas estufadas com cebola, tomate, alho, gengibre e coentros, e o Paneer Tikka Masala, uma versão do famoso prato sem carne.
As lentilhas são, aliás, um dos alimentos mais típicos do Nepal. São as protagonistas de um dos pratos que mais se encontra naquele país, o Dal Bhat, que mais não é do que arroz com uma espécie de sopa de lentilhas. O arroz, é preciso dizer, é a base da alimentação nepalesa, até porque aquele país é um grande produtor deste cereal. Outro prato típico é o Momo, um pastel recheado, inicialmente com carne de búfalo, e, mais tarde, com frango ou vegetais.
São precisamente estas raízes do Nepal que Rajkumar pretende introduzir na nova ementa, que vai lançar nos próximos dias. No Real Nepal II, com horário alargado, aberto diariamente das 10 às 2 horas, as diversas opções de Momos já estão disponíveis, assim como a Thukpa, uma sopa de noodles originária do Tibete, que pode levar frango, camarão ou vegetais. Na casa-mãe, ainda não.
Mas eu tive a sorte de ser recebida com uma generosa travessa de Momos. Os pastéis de frango têm um sabor intenso, mas muito agradável, e o picante é servido à parte para não afugentar palatos mais sensíveis. Apesar de ser apenas uma entrada, não se consegue comer apenas um, nem dois. Leves e ricos, em simultâneo, deixam no ar a vontade de experimentar muito mais da cozinha nepalesa.

E eis que chega o prato principal anunciado como caril de cabrito. Na verdade, é uma espécie de três pratos num, já que além da carne, apresentada em pequenas taças douradas, são servidas mais duas opções: batata com espinafres e, como não poderia deixar de ser, lentilhas.
O arroz solto basmati vem no centro do prato para, depois, ser envolvido com o acompanhamento escolhido. O frango grelhado no forno Tandoori fez ainda parte do menu apresentado. Para beber, experimentei a versão de coco do tradicional Lassi, uma deliciosa bebida indiana à base de iogurte e que pode levar fruta e especiarias.

Em poucos minutos, os meus sentidos viajaram para um país distante que ainda não conheço. Pude ver as cores ricas e intensas, pude sentir a alegria de receber, pude saborear deliciosas combinações de ingredientes frescos, pude conhecer outras tradições, num ritual de sentidos e boas vibrações.
O restaurante está aberto todos os dias das 11 às 15 horas e das 19 às 23 horas.
Morada: Avenida da República, nº 66 B (junto à estação de Entrecampos), Lisboa
Telefone: 211919222

Créditos das imagens: Helena Simão
Este texto integra a rubrica “Saborear” do portal SAPO Viagens.

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